domingo, 23 de agosto de 2009

Antes da infidelidade (parte 3)

Um dia, apercebi-me que a minha altura ultrapassara a altura da “D”. O meu ângulo de visão sobre os seus olhos mudara e eu tinha muita dificuldade em ocultar o brilho de felicidade que ela de certeza via nos meus olhos sempre que as nossas retinas se tocavam. Nessa altura, os nossos encontros eram menos frequentes, “eu estava a dar-lhe espaço”, dissera-me ela um dia. Mas esse intervalo de tempo, funcionava como uma lupa aumentando ainda mais toda a irracionalidade da minha paixão. Entre os meus dezassete e dezanove anos, estávamos meses sem nos vermos. Era eu que normalmente tinha a iniciativa de lhe telefonar para combinarmos sair. E bastava ouvir a sua voz pelo telefone e o vazio e o cheio conjugavam-se sob a forma de angústia e alegria que se enlaçavam fortemente entre o sonho e a realidade.
Apesar de ser ainda menor de idade, eu já vivia sozinho e era praticamente independente. Como estudava e trabalhava, a minha vida social não era muito intensa. Reunia-me com os meus amigos esporadicamente, quase todos eles muito mais velhos do que eu. Ia-mos ao cinema ou a um “Pub” mas a nossa preferência caía quase sempre sobre a Central de Belém onde ficávamos até de madrugada a petiscar e a contar anedotas. Ria-mos até nos doerem os músculos e a cada rodada que chegava à mesa levantava-mos os copos para brindar a nós e à vida. As anedotas seguintes depois da terceira rodada eram explosivas mesmo que não as entendêssemos ou tivessem graça alguma. Jamais me esquecerei desses momentos!
O facto de viver sozinho, oferecia-me desvantagens e vantagens. Uma das vantagens, era usufruir dum cantinho só meu e puder transformá-lo num ninho para sonhar, namorar e amar tranquilamente...

Nunca falei com a “D” sobre as minhas “amigas” assim como ela também nunca me falara em namorados ou amigos. Quando nos juntávamos eu tinha a sensação de estar a dar continuidade a qualquer coisa de muito importante sem identificar ou saber exactamente o quê. E depois, sentia-me como um rio se deve sentir depois de atravessar os rápidos acidentados e cascatas abruptas para passar a um leito regular com margens verdejantes e árvores majestosas onde as famílias fazem piqueniques e as crianças brincam alegremente em segurança. Ela serenava-me e tranquilizava-me o espírito só com a sua presença. Era como se ela me transformasse. Ou então, eu retornava à minha autenticidade, à minha verdadeira natureza.

As nossas conversas eram simples e vulgares. Mas dentro da simplicidade, tudo parecia atingir uma dimensão impressionante. Quantas vezes me questionavam sobre o que é que eu gostaria de fazer no futuro ou que curso gostaria de frequentar. Eu respondia quase sempre com um encolher de ombros. Mas quando a “D” me questionava sobre o meu futuro ou outra questão por mais insignificante que fosse, as minhas respostas eram arrancadas da minha profundeza e quando não encontrava as respostas, mais tarde retomava o assunto para que ela soubesse a minha opinião ou decisão. Na altura, não tinha consciência da importância que esta partilha estava a ter na minha formação e na minha vida. A consciência que tinha era que não imaginava a minha vida e o meu mundo sem a “D”. Sempre que nos despedíamos um do outro, eu mergulhava numa nostalgia e num tédio enorme.

16 comentários:

Paula Raposo disse...

Estou a gostar de te ler.
Obrigada pela tua visita. Beijos.
P.S.-Já não penso que casaste com ela.

intimidades disse...

lindissimo
ha uma idade em que somos maoires que nos proprios
Nunca devemos deixar de sentir assim
Jokas

Paula

Isabel Branco disse...

Faroleiro

Obrigada pela visita.

Histórias de vida que o tempo guardou na memória e que tanto contribuiram para a afirmação da vida presente...

Gosto do espaço e voltarei.

Sonia Schmorantz disse...

Boa semana !!
Repartir suas alegrias
é como espalhar perfumes sobre os outros:
sempre algumas gotas
acabam caindo sobre você mesmo!
abraço

Branca disse...

Têm pessoas assim, que pela simples presença já nos acrescenta algo...e é na simplicidade de ser que elas se tornam grandiosas.

Gosto de 'ler' vc! Que a semana lhe traga muitas alegrias...bjo.

Anónimo disse...

lindo... esse tantra que impões na história deixa-nos imaginar...tudo e mais alguma coisa... mas quando o tema é o 2antes da infidelidade...deixa-se também adivinhar...

aguardo, pelo parte 4 e todos os restantes

e sei que é uma história sem fim

este capítulo em particular, tive que "roubar"


beijoca

PS: só a infedilidade a nós próprios não tem perdão

O Faroleiro disse...

Estimada Anónima, por saber quem és através do que escreves, tenho que dizer-te que muito me honra o teu "roubo".
Bj

Pedrasnuas disse...

FAROLEIRO...AO TEMPO QUE NÃO TE SENTIA POR CÁ...BOM REGRESSO!
ESTOU A SABOREAR A TUA NARRATIVA COM DELEITE... ESSAS PAIXÕES SÃO SEMPRE "VIOLENTAS"....FICAM DENTRO DE NÓS...SÃO BOAS MEMÓRIAS!!!

ABRAÇO

Delirius disse...

Adorei ler este pedacinho de ti.
Também adorei encontrar-te no meu sítio, obrigada, espero que voltes.

Voltarei!!!
Beijo.

carmen disse...

Atravessei o mar e cheguei aqui. Acho que o farol me guiou....
Estou lendo o que escreves e tenho gostado muito.............
Prazer em conhecê-lo
Abçs de além mar.

Eu sei que vou te amar disse...

Maravilhosa forma de expressar e ditar as palavras que so o coracao consegue "gritar"!
Gosto de te ler...
Um beijo doce

Anónimo disse...

Que bom voltar ao seu espaço e encontrá-lo mais preenchido!
Uma realidade muito bem colocada em pedacinhos,que nos deixam sempre a imaginar o que virá a seguir.
Para quando a parte 4?
Não demore, é tão bom voltar a lê-lo.
Um abraço com saudade.

O Faroleiro disse...

Caro anónimo, obrigado pelo comentário e pelo incentivo. Com certeza que a parte 4 não demorará muito...
Até breve!

Carla disse...

estou a adorar ler
beijo

Tete disse...

Amei seu blog! Nunca tive coragem de postar nada para alguém que náo conheço(Como fosse possível ser anônimo na web), mas tive votade de deixar uma mensagem de parabéns para você. A minha única exposição na rede mundial é um blog que escrevo e assino de uma forma que poucos vão me identificar. Se puder dá uma passada lá. Não sou uma escritora como você, mas sinto que os dilemas da vida são universais. Apesar de um oceano que nos separa me identifiquei com seu texto.
Um grande beijo
Tete

O Faroleiro disse...

Obrigado pela sua visita, Tete.
Tentei aceder ao seu blog mas infelizmente não consigo aceder às suas postagens...
Um abraço deste lado do oceano!