segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Esperança

Há-de vir um dia,
Que me levarás contigo
Para dormir no universo infinito
Hoje,
Que te observo a adormecer,
Tenho esperança,
De acabar antes de morrer.

sábado, 8 de novembro de 2008

Sexta-feira

Parece que alguém me lavou à moda antiga, num tanque de lavar a roupa. Fui bem ensaboado e esfregado. Bateram-me contra a pedra várias vezes, passaram-me por água limpa e torceram-me até há última gota. De seguida, penduraram-me num estendal ao sol, de cabeça para baixo bem fixado com molas da roupa cravadas nos dedos dos pés. Debater-me no estendal poderia ser perigoso. Um movimento mais energético e a força de gravidade encarregar-se-ia do resto. Por isso, deixei-me ficar pendurado a baloiçar preso à corda da roupa até que a noite chegasse. Foi um dia de seca perfeito. O trabalho, as ideias e as palavras escorreram lentamente por mim. Foram-se desprendendo gota a gota formando uma poça que também ela acabou por desaparecer. O dia volatilizou-me o intelecto e deixou-me amarrotado e seco. Agora é só recolherem-me e passarem-me a ferro durante o fim-de-semana e fico como novo para mais uma semana de uso.

Entretanto, a noite chegou. Já não estou de cabeça para baixo e já não me sinto um farrapo ao sol. Sinto-me como os morcegos se devem sentir ao acordarem do seu sono diurno. Revigorado, vou deixar que as minhas asas me levem até aos sonhos que me alimentam.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O silêncio da ausência


Há pouco tempo passei pelo Alentejo. Estive em Alter do Chão e acabei por visitar uma pequena aldeia chamada Alter Pedroso.
Esta aldeia fica num monte o qual é rodeado por uma vasta planície. Os Sobreiros e as Azinheiras dão um pouco de verde à vasta superfície amarelo-torrado que se estende até ao horizonte visível do pequeno miradouro onde me encontrava. Bem ao longe, um grupo de vacas Charolesas, pastava à sombra dos Sobreiros e foi exactamente naquele ponto com vida que descansei demoradamente os meus sentidos.
O dia estava ameno. Nem frio nem calor. O sol aproximava-se do horizonte e coloria o céu de cores próximas das cores da terra. As sombras das árvores estendiam-se e manchavam o feno curto ligeiramente tombado, como se alguém invisível estivesse a puxar lentamente um manto acinzentado como quem prepara um leito para mais tarde se deitar.
Espaçadamente, um ou outro silvo fazia-se ouvir. Nunca percebi se era apenas um ou mais que um oriundos de pontos diferentes. O tom não me parecia o mesmo ou seria a distância da sua origem que nunca era a mesma? Talvez fosse uma ave que se deslocava em baixo voo e de vez em quando parava do seu passeio aéreo para se anunciar à natureza. Ou pelo contrário, talvez fosse um grito de desespero da própria terra, que deixada à sorte, pedia clemência ou ajuda a um forasteiro. Eu procurava detectar a origem daquela espécie de grito. Tentava adivinhar donde viria o próximo silvo, concentrava-me num ponto apurando a audição mas, no momento que desistia da escuta por desconcentração ou falta de paciência, eis que o silvo se fazia ouvir outra vez. Parecia estar mesmo ali ao lado, no entanto não estava em lado nenhum.
- Então o que é que vossemecê pensa disto home?
O silêncio daquela terra e o silêncio do céu amplificaram a voz rouca e pausada que me atingiu surpreendentemente. Aguardava um silvo, um gemido duma cigarra mas não uma voz humana. Desviei o meu olhar recuperando do efeito de hipnose que o infinito nos induz e encarei um homem velho de pele queimada pelo sol e meio curvado pelos anos de trabalho nos campos. Apoiava-se num cajado de madeira, com certeza arrancado há muitos anos duma árvore adulta.
Quando os nossos olhares se cruzaram, ele elevou a sua mão direita até ao chapéu que usava enterrado até às sobrancelhas e, pegando levemente na pala com o polegar e o indicador, inclinou ligeiramente a cabeça em jeito de saudação.
- Boa tarde!
Respondi-lhe eu ao gesto de saudação ao mesmo tempo que voltava a concentrar-me no movimento dos animais cor de pérola mas não indiferente àquele olhar inquisidor.
Ele encostou-se ao muro do miradouro aguardando uma resposta. Apoiou os cotovelos na cantaria e ficou ali ao meu lado, provavelmente a questionar-se sobre o que é que eu estaria ali a fazer ou o que estaria a ver e pensar. Ou talvez me estivesse a convidar à sua maneira para um passeio ao passado saudoso de mais de oitenta anos de vida pobre, sofrida e instável.
A sua presença ao meu lado, realçou ainda mais aquele silêncio quase físico, um silêncio imposto não pela natureza mas sobretudo pela ausência de vida. Pela ausência de crianças a correr e a brincar nas ruas. Pelos homens que abandonaram os campos para irem para as cidades. Pelo sino da pequena capela que já não dobra em chamamentos para a missa ou a assinalar as horas do dia. Ou pelos cães pastores que já não têm rebanhos para ajudar a guardar.
As mulheres, que outrora participavam activamente na faina da terra com os seus trajes campestres coloridos, chapéus redondos de palha e lenços escarlate e negro caídos sobre os ombros, imaginava-as agora de terço na mão escondidas por detrás das cortinas das pequenas janelas de suas casas paralelepipédicas caiadas de branco e azul-marinho. Envergam trajes de negro pelo luto dos maridos que as abandonaram e choram os filhos que trabalham na cidade ou no estrangeiro e que raramente as visitam. Choram lágrimas de dor e oram sozinhas em silêncio sem qualquer esperança no futuro.


Já não vão para o campo ceifar ou mondar. As foices oxidam e as forquilhas gretam por falta de uso. Estão penduradas ao tempo até que um coleccionador a troco duns míseros euros, as adquira para serem expostas em casas luxuosas cujos proprietários não compreendem ou sequer imaginam quantas mãos calejadas de trabalho árduo as pegaram e quanto suor e sangue fora derramado pelos seus cabos.
A debulha do milho acompanhada dos cânticos centenários é uma memória bonita a quem por ausência ou desinteresse, não se pode legar e, mais tarde ou mais cedo, deixará de ser uma recordação para desaparecer para sempre.
“O que é que vossemecê pensa disto home?” A pergunta ficou suspensa como suspenso está o tempo naquela aldeia.
Aquele homem que estava ao meu lado não estava a fazer-me uma pergunta. Ele estava sim a queixar-se. Compreendi isso quando vi o seu olhar perdido na planície à procura de si próprio. “O que isto era e o que é agora…” Ouvi o seu pensamento pela expressão triste dos seus olhos.
Eu compreendo muito bem o vazio daquele homem. Já vi aquele olhar nos olhos do meu pai quando juntos, percorremos as margens do rio Arade em Portimão. O silêncio das traineiras que deixaram de atracar na lota e o silêncio dos remates que os pescadores faziam entre si durante o arremessar para a muralha dos cestos de verga carregados de peixe. O silêncio da venda a granel do pescado. As pessoas que se aproveitavam para subtrair sardinhas nas caixas cheias de peixe com uma cobertura de gelo por cima. A sirene das fábricas da indústria de conserva que chamavam pelas operárias e os amigos que já não estão no molhe para o saudar.
Na terra onde apenas nasci e que o meu pai deixou quando eu tinha um ano de idade, a ausência não se transformou em silêncio como em Alter Pedroso. Transformou-se numa outra coisa que não consigo adjectivar.
Deu lugar a uma sociedade organizada e virada para o consumo, para a especulação. Uma cidade descaracterizada que mudou estruturalmente ao ponto das pessoas não se reverem e de se sentirem desenraizadas. Ao contrário de Alter Pedroso, não foram as pessoas que abandonaram a terra. É a terra que insiste em fazer sentir às pessoas que elas estão obsoletas.
Os lugares estão lá. Mas estão desprovidos de alma, daquilo que lhes deu essência e vida ao longo do tempo.

- Então o que é que vossemecê pensa disto home? Vossemecê não é daqui pois não?
- Não meu caro amigo, sou de Lisboa. O senhor pergunta-me o que penso disto. Eu acho este lugar lindo. Alter Pedroso parece um poema.
Um poema triste, pensei para comigo. Um poema escrito por gente humilde nas páginas do tempo que a erosão do esquecimento há-de apagar.
O sol estava quase a chegar à copa das árvores e o silêncio proveniente da ausência de quase tudo, estava prestes a deitar-se sob o manto acinzentado da sombra que não parava de aumentar.
Afastei-me um pouco do muro e dei um passo para o lado para me despedir do velho homem que estava quase encostado a mim. Ele percebera que o nosso brevíssimo diálogo chegara ao fim. Mais uma vez, elevou a sua mão direita, pegou na pala do chapéu e retirou-o mostrando a sua acentuada calvície.
Apertei-lhe respeitosamente a mão ao mesmo tempo que lhe disse:
- Há-de vir um dia que a humanidade lutará para ter uma terra rica e bela como esta!
Ele esboçou um sorriso de esperança descrente e foi com essa imagem que me afastei trazendo comigo o silêncio da ausência e um silvo que agora parece chamar-me…