sábado, 15 de março de 2008

Oco

Vim até ao meu “blog” para o meu espírito me encontrar.
Passei por algumas entradas como quem entra na sua própria casa e identifica imediatamente os seus pertences. Observo as imagens, tento relacioná-las com o texto assim como olho para os objectos sobre a lareira da minha sala e procuro perceber a relação entre eles e mim. Todos eles têm uma pequena história, uma razão para fazerem parte da minha vida. O mesmo se passa com estas mensagens que vou deixando. São pequenas porções da minha vida que vou deixando devidamente ordenadas no tempo em que as escrevo mas, não necessariamente ordenadas no momento em que as vivi.
Reli algumas passagens. Contive-me em alterar uma ou outra frase que não me soa agora tão bem. Concentrei-me nalguns poucos comentários e de repente senti vontade de escrever algo. Seleccionei "nova mensagem" na barra de ferramentas, olho para o cursor a piscar na caixa de diálogo em branco e não tenho a mínima ideia do que escrever. Escrevo uma ou duas frases e apago-as imediatamente porque estão desprovidas de objectivo. Volto a introduzir outras palavras mas a desarmonia destas decepcionam-me. Não consigo ligar as palavras.
A caixa de diálogo volta a ficar em branco várias vezes e o cursor sem qualquer letra à sua esquerda, pulsa pacientemente à espera que, por acção do teclado, se desloque para a direita deixando atrás de si um rasto de sentido. Digito novamente umas letras e as primeiras palavras acabaram por dar lugar à primeira frase desta mensagem:
- «Vim até ao meu “blog” para o meu espírito me encontrar.»
Ao fim de algumas horas de combate contra esta insónia, esvaziei-me. Esvaziei-me de pensamento, de vontade e de energia. Saí da cama e vim para a sala para acabar de me esvair com o resto da noite.
O meu espírito depois de vaguear tanto acabou por me perder. Ou então perdeu-se nas trevas da noite e não me encontrou.
Talvez devesse deixar esta mensagem em branco, vazia de conteúdo, pois é justamente como me sinto, oco.

O silêncio, preenchido de nada, evidencia ainda mais este vazio, esta solidão que não pára de aumentar…

sexta-feira, 14 de março de 2008

Ficção?

Enviei-lhe à pouco uma mensagem pelo MSN que não era para si. A mensagem não tem nada de mal. O conteúdo é o seguinte: - "Boa noite Sereia, espero que estejas bem. Beijinho de saudades".
Como pode ver não tem nada de mal, mas o facto é que não era para si mas para uma amiga de longa data que tem o “nick” de Sereia e está mesmo ao pé de si na minha lista do MSN. Portanto, não se trata dum atrevimento. Mas sim dum engano inocente.
Olhando para o seu nome, Elis Regina, não deixo de achar curioso o facto de sEReia conter as letras do seu nome e apelido (ER). Olhando para os seus olhos que são lindos, também acho que ficariam muito bem a uma sereia. Não consigo ler muito neles, mas fazem lembrar-me o mar que eu adoro. Os seus cabelos compridos e loiros assentariam muito bem a qualquer sereia. Você vive rodeada pelo mar o que é indispensável à sobrevivência das sereias.
Por outro lado, as sereias fascinam-me. Toda a sua mitologia e encanto me atraem. Questiono-me porquê esta amizade virtual que mantemos...
Há quem diga que no mundo, nada acontece por acaso. Seguindo esta linha de raciocínio, se calhar, a mensagem que não era para si tem um significado ou uma razão de ser que me transcende. Enganei-me na mensagem. Enviei-a para si mas não a repeti para a tal Sereia. Talvez você seja uma sereia. Uma sereia que encanta de verdade. Talvez eu quisesse enviar a mensagem a si ou talvez não. Terá sido o meu subconsciente a trair-me mais uma vez? Ou não me traiu e a razão é que me trai? Seja como for, foi você que a recebeu. Não estou arrependido. Até acho que você daria ou é uma linda sereia...
Eu sou filho dum pescador. A minha relação com o mar é muito forte e especial. Ainda hoje estive na praia de Oeiras e mais uma vez ele trouxe-me à memória alguns momentos de rara felicidade. Talvez seja por isso que, sempre que posso, eu acabo por estar perto dele. Umas vezes acho-o alegre, outras vezes, triste ou revoltado. Hoje, achei-o indiferente. Talvez por estar demasiado ocupado a pensar nas coisas que tenho de fazer até ao fim deste mês muito particular. Até as gaivotas que normalmente estão irrequietas, estavam impávidas na areia da praia cada vez mais escassa. Perfiladas à brisa que soprava do mar para a terra, lá estavam estáticas na parada da praia como militares em formatura de honra com a determinação e paciência que só as aves marítimas têm. O que esperavam elas? Do que fui eu à procura?

Sereia ou não, gosto muito de si. Não sei porquê. Gosto.
Quem sabe se amanhã ou noutro dia qualquer, uma sereia me pega na mão e me leva a passear pela praia e me convença a ir com ela até às profundezas dos meus sonhos de adolescente...

Fico a aguardar os seus comentários. Sei que os vai fazer com um sorriso nos lábios!
Sinto-me bem. Por isso estou a brincar como as crianças o fazem. A brincar sem maldade. Escolhi-a a si para brincar porque você, como diriam os meus pais, é uma boa companhia...

A esta hora as gaivotas já estão a dormir. Com certeza que adormeceram embaladas na canção do mar. Eu, só irei para a cama muito mais tarde. Mas irei adormecer como sempre, a sonhar...

quarta-feira, 12 de março de 2008

Lisboa

Tenho saudades das calçadas, dos miradouros, dos painéis de azulejos.
Tenho saudades do movimento da gente, do comércio, das esplanadas, dos alfarrabistas.
Tenho saudades do Tejo, do Cais, das Estações de embarque.
Tenho saudades dos largos, dos becos, das ruas estreitas das casas antigas.
Tenho saudades dos cafés, dos cinemas, das tascas.
Quero encontrar-me com a indiferença das pessoas, das coisas.
Quero misturar-me com tudo, ser absorvido.
Quero encontrar-me com os lugares e comigo.
Tenho saudades da cidade, de mim.