sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Reflexo


«Eu não tinha este rosto, este rosto de hoje, assim calmo, triste. Nem estes olhos tão vazios. Eu não tinha este coração que chora e que não se mostra.
Eu quase que não dei por esta mudança...como foi possível?
Em que espelho ficou perdida a minha face?»

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Só querer


«O mundo está nas mãos daqueles que têm a coragem de sonhar, e correr o risco de viver seus sonhos.»

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Não me apetece

Não me apetece fazer mesmo, mesmo, mesmo, mas mesmo nada!

Neste exacto momento que estou a escrever, olhei para o canto inferior do PC e vejo 09:45 (da manhã). Olho para a pasta de pendentes que está mesmo aqui no meu lado esquerdo e desvio imediatamente os olhos como quem faz de conta que não está lá ou que está vazia! Olho pela janela do meu gabinete e o que vejo? Nada. Está um camião estacionado mesmo em frente à minha janela que me está a cortar as vistas. Portanto, isto está a começar mal.
O telemóvel toca e eu carrego na tecla vermelha. Ele volta a tocar e eu digo em silêncio «que merda»... O telefone toca, será o gajo que eu não atendi, e eu, volto a dizer em silêncio, «que merda». Os meus colegas, oh Faroleiro isto e aquilo e eu, …Recebo um email, oh Faroleiro logo tens que ir ao supermercado e eu, …Os gajos do prédio elegeram-me administrador e eu, …Tenho uma torneira que pinga, oh Faroleiro tens que, e eu, …Tenho uma data de propostas e estudos para fazer e eu, …Há uma obra que não está a correr bem e eu, …A impressora não tem tinteiros e oh Faroleiro você tem que, e eu, …
O telemóvel volta a tocar, a pasta de pendentes continua no meu lado esquerdo a olhar para mim, a torneira deve estar a pingar…olho pela janela, e o gajo do camião continua lá.
Merda!

Visão

Ultimamente, tenho tido a visão dum caminho estreito, de terra escura e húmida, murado nos extremos com pedra tosca e fechado por cima com uma abóbada verde de plantas com imensas flores coloridas. Imagino-me a correr descalço e tronco nu com os braços estendidos e mãos abertas a penetrar pelos raios solares. A harmonia desta visão completa-se com um intenso cheiro de terra húmida e um perfume indescritivelmente doce de flores de jardim. Curiosamente, a minha imagem, é a de uma criança. Vejo-me a correr por esse caminho paradisíaco, em direcção a um foco de luz que vejo ao fundo e que vai aumentando à medida que me aproximo…
Vou a fugir de quê e para onde?
Que sensação de liberdade!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Dentes

Regressei do dentista e aviso-os que estou de muito mau humor. Acho que vou para casa porque estou intragável.
Há um mês e meio que ando a caminho da dentista para acabar o tratamento a um dente que foi desvitalizado e ainda não foi desta! Apetece-me berrar, gritar, uivar, dar pontapés, gesticular, discutir e depois do cansaço se apoderar de mim, dizer energicamente merda e outros palavrões indecorosos que me ajudem a descomprimir a raiva que me evadiu desde as unhas dos pés aos cabelos da cabeça…
Daqui a duas semanas tenho de regressar aquela cadeira, que mais parece uma cama, para mais uma cessão de tortura medieval. Acho que preferia ter um filho…
Dêem-me chapadas, murros, biqueiradas, beliscões, puxões de cabelos, reguadas mas não me mexam nos dentes…
Agora que desabafei, vou-me embora um bocadinho mais aliviado.

"Num País Chamado Simone"

Obrigado e parabéns Simone pelo espectáculo comemorativo dos seus 50 anos de carreira.

Ontem, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, desfilaram pelo palco grandes temas como Tango Ribeirinho, Esta Palavra Saudade, Visita de Camarim, Desfolhada à Portuguesa, No Teu Poema, No País do Eça de Queirós e o sempre aguardado (por mim) A Noite e a Rosa, entre outros.
Foi uma noite memorável, inesquecível...

É em alturas como esta que tenho pena de não ter o dom dos poetas que você canta para descrever, mais uma vez, os sentimentos que me invadem sempre que a oiço cantar.

O que sinto, assemelha-se à emoção dum regresso a casa depois duma prolongada ausência do País. O reencontro com a nossa lingua, com os nossos sabores, com as nossas cores e cheiros. O abraço caloroso dos amigos e o amor da família. As novidades sobre o Benfica, as notícias sobre a nossa economia, as picardias dos politicos, a revista portuguesa. Mas também os nossos feitos, a nossa história, a nossa Pátria.
Enfim, toda uma ententidade que me faz sentir. Por isso, este título não poderia ser melhor: "Num País Chamado Simone"

Até sempre Simone!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

(in)decisão

Nós gostamos duma pessoa porque ela é extraordinária, gosta de nós, dos nossos filhos e faz tudo para que nos sintamos bem. Nós gostamos dessa pessoa porque ela é trabalhadora, amiga e tem sempre uma palavra de conforto no momento que mais precisamos. Estimamo-la por ela estar ao nosso lado incondicionalmente, ter a capacidade de nos perdoar mesmo em coisas terríveis. Por isso tudo, essa pessoa merece a nossa admiração, o nosso carinho, o nosso amor.
Mas será que gostamos do que somos ao lado dessa pessoa? Quem somos nós na realidade e o que é que queremos da vida com ela? Ou melhor, como é que desejamos ser exactamente neste momento, logo, amanhã, depois de amanhã? Terá ela a capacidade nata para que os nossos desejos, os nossos sonhos se concretizem com ela ao nosso lado?
Às vezes, pensamos se nos falta algo ou se não nos sentimos bem é porque alguma coisa está mal connosco. Não com ele ou ela. Connosco. Crucificamo-nos, condenamo-nos a penas pesadas e fazemos querer a nós próprios que não prestamos. Nada mais errado...
Eu ando a esforçar-me para gostar do que sou. Não como eu sou na realidade, mas como eu acho que deveria ser à imagem da expectativa dos que me rodeiam. Tenho a impressão que ando a fazer de conta. Que vou passar o resto da vida a representar como se estivesse numa peça de teatro.
É isso que quero?

O nome do futuro



«O futuro tem muitos nomes.
Para os fracos é o inatingivel.
Para os temerosos, o desconhecido.
Para os valentes, é a oportunidade.»

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Inconsequência



O meu espirito olha para mim com pena e revolta há demasiado tempo. Às vezes pega-me ao colo paternalmente e adormece-me com sonhos que ele sabe de cor. Outras vezes, agarra-me na mão e leva-me até um anfiteatro de jurados para me julgarem do quanto estou a despidiçar desta vida.


sábado, 23 de fevereiro de 2008

Dores

Costumo dizer que estou com dores naqueles dias que me apetece o que não me devia apetecer sabendo que não me apetece o que tem que me apetecer exactamente no momento em que me apetece o que não me devia apetecer acabando por fazer o que não me apetece ao mesmo tempo que penso no que não me devia apetecer mas que me apetece.



e-mail

Detesto não seguir o meu plano diário (o isto e o aquilo) mas há dias em que começamos a fazer o pino e acabamos a fazer a espargata agarrando tudo o que podemos com os dedos dos pés, com as mãos, com os dentes e se quiser imaginar, outras coisas penduradas no que é possível pendurar num homem! Está a imaginar o quadro não está?
É nestes dias que: - Oh João você tem que…e eu penso aquela palavra que começa por “f” e acaba num tracinho “se”…
Apesar da “ginástica” de ontem, hoje acordei sem “dores” e bem disposto.
Nada melhor a seguir ao despertar do que uma boa espreguiçadela precedida dum prolongado bocejo. Às vezes, após o bocejo, uma libertação de gases, por mais tímida que seja, também ajuda o corpo a recompor-se. Hi, hi, hi, hi. Estou a brincar! A seguir ao bocejo, levanto-me, espreito pela janela e é nesse exacto momento que se dá o clik. Subconscientemente começo a escolher a roupa, depois casa de banho ao mesmo tempo que “hoje tenho de fazer isto e aquilo”, depois pequeno almoço ao mesmo tempo que “hoje tenho de fazer isto e aquilo”, depois quarto ao mesmo tempo que “hoje tenho de fazer isto e aquilo”, depois garagem ao mesmo tempo que “hoje tenho de fazer isto e aquilo”, depois bica ao mesmo tempo que “hoje tenho de fazer isto e aquilo”, depois escritório ao mesmo tempo que “hoje tenho de fazer isto e aquilo”. Ao chegar ao escritório, começo com “isto e aquilo”.
Hoje, comecei com isto. Um mailzito para si.

Adeus


Adeus é uma palavra demasiado forte, definitiva e triste para mim. Parte de mim, morreu com um Adeus.
Outra parte, há-de morrer a pensar naquele «até logo»…

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Nazaré

As empresas são obrigadas por lei do trabalho, a proporcionar aos seus colaboradores, exames médicos de aptidão para o desempenho das suas tarefas profissionais. Os exames são relativamente simples. É preciso fazer análises ao sangue, análises à urina, electrocardiograma e consulta com o médico. A rotina acaba com a consulta com o médico.
Encontrava-me no consultório e quando acabei as análises e o electrocardiograma incluindo pesagem, fui para a sala de espera aguardar que me chamassem para o médico. Passado algum tempo, lá me chamaram:
Sr. Faroleiro, por favor dirija-se ao gabinete “x”.
Pousei a revista (que já tinha mais de um ano) na mesa e dirigi-me ao gabinete. Bati à porta e ouvi uma voz feminina:
- Entre se faz favor.
Transpus a porta ao mesmo tempo que pesquisei num relance breve onde estava a médica (normalmente é um médico).
A sala tinha um formato quase quadrado. Chão, tecto e paredes com a mesma tonalidade clara com aquele fedor característico a éter. Na parede à direita da porta estava uma balança e um cabide em aço inox com um casaco de senhora pendurado. A balança estava equipada com pesos e uma escala na vertical para medir a altura das pessoas. Encostada à parede em frente da porta e ligeiramente à esquerda, estava a marquesa almofadada e forrada de papel branco sem vestígios de uso. Por cima da marquesa, estavam pregados alguns quadros com avisos de saúde diversos do tipo “fumar mata”, “As bebidas alcoólicas fazem mal quando…», «as drogas…». Ao lado, um poster enorme, com o mapa do corpo humano, mostrava os músculos, veias, artérias e alguns órgãos importantes.
A médica, estava sentada por detrás duma secretária em mogno que estava ao lado esquerdo da sala descaída sobre um dos cantos. Avancei para onde a doutora estava. Ela, pressentindo que eu estava perto, disse-me sem tirar os olhos do impresso que estava a preencher:
- Sente-se, sente-se. Esteja à vontade.
A médica, aparentava não ter mais do que cinquenta anos. Cabelo cor de cobre muito bem arranjado a cair sobre os ombros tapando-lhe o pescoço que imaginei ser esguio. Como ela estava a escrever, o cabelo caía-lhe para a frente em forma de cortina tapando-lhe mais uma das faces do que outra devido ao corte. Usava uma camiseira rosa, generosamente decotada e suficientemente justa realçando-lhe o peito não muito grande. Um colar colorido com pedras multicolor mas não garridas, balançava no decote com os movimentos que fazia ao escrever. A sua pele era fina e muito branca. As mãos, elegantes e dedos compridos, deixavam perceber que não estava habituada a trabalhos domésticos. Não usava anéis. O contacto das pulseiras do seu punho direito com o tampo da secretária provocava um som característico cujo ritmo era dado pela caneta ao preencher o impresso.
Ao fim de um ou dois minutos de estar sentado a pouco mais de 70 cm dela, comecei a diferenciar o perfume doce e ao mesmo tempo fresco que ela libertava em contraste com o da sala. Olhou para mim. Olhos verdes escuros. Julgo que usava um pouco de rímel o que ainda realçava e definia mais os seus olhos. Não tinha mais nenhuma maquilhagem. Talvez um pouco de creme, pois a sua pele não apresentava qualquer mancha e brilhava suavemente.
- Sr. Faroleiro, queixa-se de alguma coisa? – Perguntou-me ela.
- Não doutora. Não tenho nada pelo menos que saiba.
- Ponha a manga da camisa do braço esquerdo para trás para o auscultar se faz favor.
A sua voz era suave e melodiosa. Ao proferir aquelas palavras, o seu rosto oval e magro quase não mexeu. Apenas os seus lábios, bem desenhados e cheios, deixavam escapar as palavras de uma forma automática.
- A sua tensão arterial está boa. Faz algum desporto? Fuma? Bebe?
As perguntas saíam-lhe naturalmente e eram formuladas por uma ordem secular e indiferente.
- Doutora, eu faço uma manutenção num ginásio. Também pratico Cycling com regularidade nesse ginásio embora esteja parado há 3 meses.
- Pois, já verifiquei na ficha que teve um aumento de peso em cerca de 4 Kg. Está a pensar voltar?
- Sim, sim doutora. Estou a fazer apenas uma pausa…
- E quanto ao tabaco e à bebida?
- Não fumo e bebo moderadamente.
À medida que lhe respondia, ela tomava notas e registava a informação na minha ficha com a música das pulseiras a acompanhar. Eu naquele momento, já me sentia mais à vontade. Recostei-me melhor na cadeira e comecei a apertar a manga da camisa quando ela me disse:
- Vamos despir a roupa da cintura para cima. Pode pendurar a roupa no cabide e dirigir-se para a marquesa.
Levantei-me e dirigi-me para o canto onde estava o cabide. Desapertei o cinto, desabotoei as calças e retirei a camisa e a camisola interior. Pendurei a roupa e fui para a marquesa onde a doutora já estava à minha espera em pé.Não tinha mais de 1,65 metros de altura. A camiseira, cintada e posta para fora das calças de ganga não muito russas, assentava-lhe extraordinariamente bem deixando mostrar as suas curvas. Era uma mulher muito bem conservada, bela e elegante. Confesso que não estava indiferente. Mandou-me sentar na marquesa e auscultou-me com o estetoscópio primeiro nas costas e depois no peito. Mandou-me respirar profundamente e repetiu a auscultação. A aproximação dela ao meu corpo tornou mais bem definido o seu perfume doce mas não muito intenso. Os seus cabelos passaram ligeiramente pelos meus ombros e mexi-me ligeiramente com o passar do frio do aço do estetoscópio na minha pele. Mandou-me levantar para me examinar a boca. Pôs-se à minha frente. Os meus olhos descaíram ligeiramente para o seu peito por milissegundos e levantaram-se logo a seguir irrequietos com aqueles dois pontos salientes…Não consegui evitar esta indiscrição. Faz parte da condição masculina. Uma mulher atraente e ainda por cima a revelar a sua sensualidade, é complicado resistir! Ela reparou no meu movimento de olhos e ligeiramente ao rubro, disse-me para me virar de costas.
- Tem algum problema de coluna? – Perguntou-me ela.
- Não doutora. Há já algum tempo, tive um problema na 5ª vértebra cervical. Mas já passou.
- Fez alguns exames?
- Sim.
Ao mesmo tempo que me fazia as perguntas, pousou as suas mão nas minhas costas e passou-as num movimento delicado e lento, de cima para baixo, acompanhando o relevo das vértebras da cervical com os seus delicados dedos. Assim que a doutora iniciou o movimento junto ao meu pescoço, a minha pelo mudou automaticamente de textura. Os pelos dos braços estavam eriçados e a pele arrepiada parecia pele de peru. Ela notou esta alteração e diminuiu a pressão dos dedos nas minhas costas. O resultado foi desastroso. O perfume dela e o contacto das suas mãos macias na minha pele deu origem a uma revolução interna no meu corpo de homem. Ela mandou-me esticar os braços para a frente em ângulo recto em relação ao meu corpo e fechar os olhos (como era conveniente).
- Pode vestir-se. Está tudo bem. – Disse-me ao fim de alguns segundos.
Estonteado, vesti-me à pressa e com dificuldade em olhar para ela. Ela sentou-se. Voltou aos registos e quando eu já estava pronto para sair encarou-me com aqueles olhos que desarmam os mais fortes e disse-me:
- O senhor tem tendência para o colesterol elevado. Quando receber o resultado das análises, ligue-me para o consultório.
- Com certeza doutora. Obrigado. Como é que a doutora se chama?
- Chamo-me Nazaré.
- Com certeza que não me vou esquecer do seu nome doutora.
- Ah sim, então porquê? – Perguntou-me ela com curiosidade.
- Por acaso, o nome da minha primeira namorada era Nazaré. Como é sabido, dificilmente nos esquecemos do nosso primeiro amor…
Ainda eu não tinha acabado a frase, a doutora parecia ter sido atingida por um raio. Como se de um toque de magia se tivesse tratado, deixei de ter à minha frente a doutora para ter a mulher. A mulher desprotegida, indefesa. Os seus olhos desviaram-se dos meus à procura dum refúgio. Ora olhava para o impresso que estava sobre o tampo da secretária, ora olhava para a parede num transtorno hilariante. Não tinha por onde se esconder. Voltou a cruzar o seu olhar comigo. Ajeitou o cabelo, olhou para o lado, olhou para mim novamente desesperada como que a suplicar que eu saísse da sala. Aquele compasso de segundos transformou-se numa revelação de fragilidade incrível.
Eu ainda estava atónito com o resultado do nosso breve diálogo e com a sua reacção. Ao sair da sala, ainda a transpor a porta, fiquei com a perfeita convicção que também ela dificilmente se iria esquecer do meu nome…
Uma breve história dum (des)encontro simples, sem maldade, que nos leva a pensar nos acasos ou coincidências das pessoas quando se cruzam.
Curiosamente, pedi a uma colega para ir buscar o resultado das análises.
Mas, ainda hoje penso naquela consulta médica!

Caminho



«Na nossa vida vamos intercalando épocas de entusiasmo com épocas de desilusão. De vez em quando andamos de peito inchado e olhar superior. Noutras ocasiões, mais frequentes do que as outras, estamos murchos como folhas que o tempo engelhou. Temos períodos dourados, em que caminhamos sobre nuvens e tudo nos parece maravilhoso, e outros, tão cinzentos, em que talvez nos apetecesse adormecer e ficar assim durante o tempo necessário para que tudo voltasse a ser belo.
Acontece-nos a todos. Esquecemo-nos que não temos razões para nos deixarmos levar demasiado por entusiasmos, pois já devíamos ter aprendido que não podem ser duradouros. Todos nós somos mais ou menos imaturos e ingénuos e por isso, vamos caminhando nesta vida em movimento sinusoidal entre aquilo que nos eleva a alma e o que nos atira para o fundo.
Quem chegou ao fim dum caminho e se, se encontra desgastado e sem forças, peça licença a tudo e olhe à volta com serenidade. Estou certo que vai encontrar outra estrada que o levará a outro caminho. Não nos podemos esquecer, que é preciso força para sonhar e perceber que o caminho, muitas vezes, vai para além do que se vê.»
É só não perder a vontade…

Uma mão amiga

«Quando estamos a sofrer, parece que o tempo ainda nos castiga mais. O dia tem mais horas, os minutos mais segundos, e tudo é mais demorado e difícil. Às vezes, sentimos a densidade dos momentos a passar e nessa altura, chega-se a ter a certeza que jamais se poderá seguir com a vida em frente. É quando nos apetece adormecer e esperar que tudo volte a ser belo… Mas a vida segue, isso não tenhas a mínima dúvida.Coloca a salvo o teu coração, porque não há como evitar a dor. Acredita que a dor ficará mais leve se tu te rodeares dos teus AMIGOS. Estende a tua mão a eles e vais ver que resulta.
A minha está estendida para ti... »

Tempestade

«Um barco que seja apanhado por uma tempestade pode não naufragar, mas dela também não sai incólume. As suas velas provavelmente rasgar-se-ão e os mastros poderão até vergar e partir-se. Difícil seria sair ileso.
O mesmo se passa na vida. Algumas vezes caminhamos em direcção à tempestade. Vê-mo-la formar-se ao longe e sabemos que temos de a enfrentar. Temos uma segunda hipótese: Fugir dela e evitá-la, mas mais cedo ou mais tarde ela vai apanhar-nos e teremos que lhe fazer frente. Ao caminharmos na sua direcção sabemos também que não poderemos sair incólumes. Alguns "estragos" hão-de sobrevir, mas enquanto ela se dirige para nós, temos também algum tempo para nos prepararmos e tentar minimizar os seus efeitos. Se conseguirmos ultrapassar os ventos contrários vamos sair dela mais fortes, mais confiantes e mais vivos. E como é uso dizer-se "depois da tempestade vem a bonança". Um céu mais azul estará do outro lado. O sol brilha de novo e aquece-nos. Seremos novos seres com novos objectivos e quem sabe, alguém para nos pegar na mão.»

Subjectividade

A propósito de felicidade, o Homem é capaz de contar o número de electrões nas camadas dos átomos. É capaz de descodificar e quantificar o genoma humano. De contar o número de estrelas que existem no nosso sistema solar, de contar o total de humanos que habitam o nosso planeta, de fazer estatísticas e de medir com exactidão tudo e mais alguma coisa. Mas, como medir e quantificar a felicidade? Quanto é que eu fui feliz hoje? E ontem? Quanto é que eu fui feliz nos últimos dez anos? Na minha vida? Se eu quiser quantificar a minha felicidade, qual a unidade de medida que devo usar? A infelicidade?

Por mais difícil que seja medir a felicidade, o que importa é que criemos condições para a alcançar…

32-1=32

Trinta e dois menos um deveriam ser trinta e um mas não, continuam a ser trinta e dois!
Eles embora nascem e cresçam, não respiram, não vêem, não falam, não bebem, não comem e não têm sexo. No entanto, participam nalgumas das várias funções acima referidas. Durante o acto sexual, há que ter algum cuidado acrescido e até há quem os ponha de parte. Participam em farras, ajudam nas refeições, interferem na voz e estão sempre presentes. Posicionam-se de baixo para cima e de cima para baixo. Têm formas e funções distintas e nem sempre são trinta e dois. Há que ter cuidados especiais ao nível da higiene e requerem manutenção frequente que aumenta com a idade de quem os tem.
Mas afinal porquê que trinta e dois menos um continua a ser 32?
Bom, acontece que hoje de manhã fui desvitalizar um dente.

Ufe


O “isto e o aquilo” não me dá espaço. Estou a começar com as dores…
Estou com vontade de dizer: - Pessoal, até amanhã. Agora vou ser feliz! Não quer dizer que o que estive a fazer até agora não me desse prazer. Mas trata-se “daquela felicidade”... Mas como é que se consegue isso? Dizemos «agora vou ser feliz» e já está? Era bom que assim fosse…Infelizmente as coisas não funcionam assim. Como é que funcionam então? Alguém sabe?
Pelo menos há quem procure a resposta e faça alguma coisa. Quem não o faz, é natural que tenha dores.

Entrelinhas

Tenho travado combates terríveis contra a minha razão. O meu consciente tem lutado contra os impulsos do subconsciente. Até agora os “rounds” têm sido ganhos pelo que está mais certo. Vou aceitando o resultado com tranquilidade. “Os espectadores” aplaudem satisfeitos…
Recebo os golpes, cuspo uma lágrima e olho perdido à minha volta à espera que a “campainha” soe. O meu treinador está prestes a atirar a toalha ao chão porque ele já percebeu que desisti.

Livre arbítrio

O livre arbítrio é uma faculdade ou característica dos humanos. Mas será esta uma característica que os humanos apliquem em plena liberdade de consciência?
O Determinismo, a democracia e a razão estão para o livre arbítrio dos humanos como o vento está para o fogo!
O livre arbítrio só está para os corajosos, para os determinados ou irresponsáveis...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Miau

Sempre que chego a casa, a minha gatinha vem a correr direita a mim. Deita-se no chão com as patinhas viradas para o tecto. Faço-lhe uma festinha na barriga e nas maminhas e ela faz: Miau. Depois, levanta-se, dá-me umas marradinhas na perna, olha ternamente para mim e faz novamente: Miau.
Pergunto-lhe: Pituxa o que é que estiveste a fazer? E ela responde, miau. Estás com fome? Pergunto-lhe eu ao mesmo tempo que lhe passo a mão pela cabeça e pelo dorso. Ela arrepia-se, põe o rabo em espada, apoia-se nas unhas e com o dorso curvado faz: Miau. Vá lá Pituxa, digo-lhe eu. Queres ir comer? E mais uma vez ela responde: miau, miau.
Quando me fazem perguntas indiscretas, respondo como a Pituxa: MIAU…MIAU



Ângulo agudo

Ontem fiz uma viagem especial. Única até hoje. Desloquei-me num plano tangente ao acredito, rebatido num passado recente, cuja projecção no quadrante do presente e do futuro me leva a dizer, porque não? Fui lá de propósito para agradecer. Aproveitei para me reflectir em diagonais e perpendiculares convergentes a 5 pontos, depositando esperança e desejo, para que vidas que me são queridas, sejam protegidas e abençoadas.

Segmentos de visão, multiplicidade de comprimentos de onda, libertação e crença religiosa no masculino e feminino que me sensibilizaram e me atrairam para duas palavras: Luz e Vida. Cânticos seculares transversais a uma geografia diferenciada de vidas e terras. Cânticos que eu não repeti por ignorância mas que admirei o uníssono daqueles que o fizeram com um à vontade quase estranho. Maria, unica palavra que sobrou do latim melodioso e total que se espalhou como um gás extasiante sobre as vidas ou pontos com vida que formam linhas e semi-rectas num espaço e tempo tão limitado. Vestuários coloridos em hierarquia vertical que cobrem e distinguem uma classe doutra. Movimentos ritualmente repetidos por gerações centenárias cuja diagonal se prolongara pelo futuro. Rebanhos. Elementos de rebanhos que seguem o dogma convictos de que os seus segmentos de vida deverão seguir alinhados às linhas paralelas de escrituras duvidosas e rebatidas num plano de outrora em formas obscuras a que hoje chamamos trevas. Registaram-se mudanças, mas apenas num pequeno ângulo que a modernidade da civilização não consegue abrir. Ritmos e pulsares que teimam em convergir neste tempo.

Cinco pontos, dizia eu. Cinco chamas acesas noutras chamas de vidas com certeza doridas e corroidas de esperança. Quantas preces? Quanto sofrimento? Não sei quantas lágrimas em curva e diagonal descendente se precipitaram devido à gravidade mas sem a gravidade daqueles segmentos de vida que as acenderam. Lágrimas também por ti, por seres minha amiga. Por partilharmos estados de espírito e sentimentos que se interceptam em diagonais pelos segmentos das nossas vidas.Transcrevo o que li por saber que também estiveste lá:

“Eu sou a luz do mundo. Quem me segue nao anda nas trevas mas tera a luz da vida.”Jo 8,12

Vê como as tangentes às curvas do nosso percurso breve se projectam em pontos luminosos pelo espaço da nossa imaginação! Sonho a vida com amor. Recalcamentos iluminados que se tornam visíveis mesmo numa noite escura. Grito aos quatro pontos cardeais o que sinto. O que fica? Fica a imagem desse grito que reflecte a tal luz com origem no apetece-me o que não me devia apetecer com destino à felicidade. Entre ambos, estão pontos de vida ou pequenos vectores de felicidade que não consigo quantificar. Quanto é que fui feliz? Quanto é que o sou? Tenho medo da resposta que estou a pensar. Prefiro não a registar. Procuro desenvolver o algoritmo que me ajude a encontrar a geometria certa das diagonais e das perpendiculares da minha linha de vida que está por desenhar. Paralelas, são alinhamentos que me frustram e revoltam. Impotência, cobardia para as apagar? Sim. Tenho esperança sobretudo nas diagonais. Preservo as poucas perpendiculares e intercepções.

Por vezes, procuro imaginar uma beleza única. Nunca o consegui.
Perfeição. Já a atingi apenas num momento. Saudades, muitas saudades dessa perpendicular…

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Marioneta



Hoje não estou nos meus dias. Quero o mundo e o que tenho não passa de um beco sem saída. Agora imaginem o meu estado, a minha frustação...
Ando à volta desse beco, entro nalgumas portas na expectativa de encontrar uma saída pelas traseiras. Mas nada. Entro noutra e mais outra casa, dou uma uma volta pelo seu interior e nem uma janela de esperança encontro. Sinto-me completamente impotente.
Pareço uma marioneta articulada com paus e fios invisíveis num palco rectangular e minúsculo cujo cenário não passa dum sofá, duma cama e duma TV. A peça poderia intitular-se: COMO FAZER DE CONTA. Merda.
Hoje estou mesmo carente. Estou triste e sinto-me só. Vou sair do trabalho e vou para casa onde continuarei a sentir-me triste e só. Náo há pior solidão do que aquela que sentimos quando estamos acompanhados. Ter consciência disto provoca dores que nem 10 Dolvirans atenua.
Preciso de liberdade. Quero ir-me embora. Deixem-me! digo eu tantas vezes para mim mesmo. Mas o que faço? Estou condenado a ser marioneta. Uma marioneta articulada com engenho de forma a que parece estar bem com tudo e com todos. Que parece ter vida própria pela forma como a articulam.
Tenho a sensação que uma marioneta deve ter quando a atiram para o interior duma mala depois do espectáculo acabar. Tenho a sensação que a loiça suja deve ter quando a metem no interior duma máquina de lavar durante vários dias sem que esta trabalhe. Tenho a sensação que uma beata deve ter quando a atiram para um penico cheio de porcaria. E o que faço? Sim o que faço? Ponho os meus lábios em forma de U para pensarem que estou bem e satisfeito nao obstante sentir-me enclausurado e perfeitamente na merda. Desculpem.
É melhor parar e ficar por aqui. Hoje não vou conseguir dar outro sentido ao texto...

Fecho os olhos para procurar um conforto. Acordei-a outra vez. Lá estamos nós a espreitar o mar pela janela da esperança. Contudo, faz frio la fora...

Simone de Oliveira


«As personalidades artisticas não são muito frequentes. Artistas sim, mas personalidades...é outra coisa.
Personalidade nunca faltou a Simone de Oliveira. Um temperamento marcado, inequivocamente, pelo excesso: excesso de talento, de vontade, de querer. Excesso de expressão e de paixão. Dela poderá dizer-se o que de muito poucos se disse: É uma daquelas pessoas maiores que a vida.»

Na passada sexta-feira, estreou na RTP 1 o programa "Sexta à Noite" de José Carlos Malato. Simone de Oliveira foi uma das convidadas. Sempre que a vejo ou ouço, não posso evitar uma mistura de sentimentos: carinho, admiração, paixão, orgulho e esperança. Pergunto a mim próprio, o que seria eu se fosse seu amigo pessoal. Tal é a sua força, coragem, inteligência e porque não dizer, tal é a sua sedução...
Parabéns pelos seus 50 anos de carreira, Simone. Se Deus existe, que ele a proteja e lhe dê muitos anos de vida. Você engrandece e enriquece todos nós.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Esperança






A auto-estrada entre Alverca e Lisboa estava congestionada, como aliás, é costume à hora de ponta. Impressiona a qualquer pessoa, sobretudo aos que vivem no interior do País ou Ilhas, ver aquela mancha de carros alinhada em três filas com as pessoas no interior a aproveitar o tempo das formas mais caricatas. Eu já vi quase de tudo. Desde tomarem o pequeno almoço, desfazerem a barba, senhoras a arranjar as unhas ou a maquilharem-se, outros a lerem o jornal, tirarem apontamentos durante chamadas telefónicas, etc.

O que me faz sempre rir, são os homens a tirarem os macacos do nariz e, depois de fazerem uma bolinha para não se pegarem aos dedos, atirarem-nos pela janela do carro fora duma forma disfarçada. Rio-me porque, embora exercite o contrário, às vezes dou por mim a fazer o mesmo…

Naquela manhã a minha atenção virou-se para um autocarro de turismo que seguia exactamente à minha frente. Os passageiros, avaliei mais tarde, eram crianças entre os seis a oito anos. Foi uma dessas crianças que colocada no banco traseiro do autocarro me acenou através do pára-brisas. Eu correspondi com um adeus, o qual, provocou imediatamente um sorriso lindo e desarmante. Fiquei a olhar para ele na expectativa e, como ele não reagiu, fiz-lhe uma careta. Ele desatou a rir e respondeu-me com uma série de caretas despertando a curiosidade dos amigos que seguiam no banco de trás ao lado dele. Num ápice, estavam todos em festa. Ora faziam caretas, ora tentavam dizer qualquer coisa, riam alegremente, saltavam dum lado para o outro, foi uma alegria. Em êxtase, eu seguia atrás deles completamente despreocupado e feliz. Raramente tenho um começo de dia tão bom…

O autocarro sinalizou mudança de direcção e desviou à direita pelo que perdi o contacto com os miúdos. Mas antes, ainda tivemos tempo de acenar com adeus e dar beijinhos na mão que atirámos uns aos outros com um sopro na mão junto ao queixo. Uma menina, talvez a mais tímida de todos quanto estavam à janela, tinha um brilho especial no seu olhar. Esse brilho tão profundo e infinito foi o meu último contacto com eles.

Depois ficou o vazio e senti-me só, embora a imagem daqueles miúdos não me saísse do meu pensamento.Perguntei-me que futuro estará reservado a eles? Aquelas crianças de olhar e sorriso tão puro, tão alegres e despreocupadas, felizes, desejadas, queridas e amadas, que irão ser daqui a uns anos? Receio por aquelas crianças. Vivemos num mundo capaz de transformar uma criança num delinquente, num mendigo. Este mundo que fizemos, é capaz de pegar num inocente e transformá-lo num assassino, num terrorista ou num pedófilo. Seremos nós capazes um dia, de construir um mundo melhor para as crianças? Seremos nós capazes um dia, de evitar que morram crianças com fome? Ou que morram na guerra dos adultos? Que mundo é este em que se consegue ir á lua, curar doenças complicadas, descobrir soluções técnicas para tudo e mais alguma coisa e não se consegue pôr os povos em harmonia uns com os outros? Que esquecemos o mais elementar da vida, que é cuidar das nossas crianças? Esta perspectiva pessimista e negativa do mundo, é real. É tão real que até magoa. No entanto, o que fazemos? Parece-me que a inferença ou o fazer que não vemos vai pervalecendo de geração para geração.O brilho nos olhos daquela menina, encheu-me a alma. Eu quero ter esperança. A minha esperança, a esperança dos adultos, está exactamente neles. Eles não sabem disso e a maior parte de nós, não consegue explicar-lhes que eles são de facto a esperança dum mundo melhor e amigo de todos.

O teu sono



Como é leve o teu sono!
Lágrimas, parecem lágrimas!


Hoje, o dia esteve frio e triste. O céu pesado e quase estático libertara um hálito húmido e pegajoso pegando-se a tudo quanto tocava. A brisa não muito forte, distribuíra a humidade uniformemente, fazendo com que as pessoas se encolhessem com frio e se recolhessem o mais possível. Mais para o final da tarde, as nuvens vestiram-se de negro em sinal de luto e encobriram o céu carregando-o ainda mais, dum cinzento triste e desolador. As ameaças de dilúvio fizeram-se sentir por várias vezes mas as nuvens preferiram chorar e descarregar toda a sua tristeza no silêncio da noite.
Recostei-me no sofá. Pousei o livro “A Ignorância” de Milan Kundera e deixei-me ficar a observar a chuva através da janela da varanda da sala. Apaguei a luz do candeeiro de apoio ao sofá e fixei-me nas pequenas gotículas que se distribuíam por toda a superfície plana e lisa do vidro translúcido. As pequenas gotículas brilhavam e cintilavam como estrelinhas distantes. A luz exterior dos carros que circulavam na rotunda em frente ao edifício incidia nelas, parecendo dar-lhes vida e pondo a nu toda a sua geografia.As gotículas iam engrossando à medida que outras gotículas minúsculas se juntavam e, quando ficavam demasiado grossas e pesadas, caíam como se fossem lágrimas deixando um rasto que outras gotas persistentemente seguiam.Foi a observação duma dessas gotas em forma de lágrima, que te acordou…
…Naquela noite, depois de regressarmos a este mundo imperfeito, pegaste-me no braço e levaste-me até à janela do “nosso” quarto (sempre preferiste dizer “nosso” ao teu quarto). A aproximação da nossa respiração à superfície fria do vidro, rapidamente embaciou parte da sua área, suficiente para o que querias. O teu dedo fino e delicado desenhou um “H+J” dentro dum coração. Sem dizer-mos uma única palavra, olhamo-nos ternamente e aconchegados um ao outro, beijámo-nos prolongadamente. Os nossos olhos voltaram a encontrar-se e os nossos corações pareciam querer rebentar.Ficámos a olhar para aquele coração que começara a lacrimejar. Primeiro, desapareceram as letras no seu interior, depois, a sua imagem foi sumindo até se tornar completamente imperceptivel.Nunca mais olhámos para a tua janela da mesma maneira. Ela tinha uma marca invisivel como invisivel tinha que ser...
Eu quero que tu descanses mas, tudo te acorda. Como é leve o teu sono! Há dias, que acordas comigo e só adormeces quando, já tarde, te adormeço adormecendo. Outros dias, acordas e adormeces sucessivamente. Basta que oiça uma música, que veja um casal de namorados, até um simples sorriso de alguém te acorda. Nas noites dificeis, és tu que me dás companhia até que derrotado pelo sono, adormeço abraçado a ti. Há-de vir um dia que descansarás finalmente. Esse dia será quando eu partir, quando deixar de haver dias para mim. Também tu partirás um dia e eu descansarei dentro de ti para sempre. As nossas vidas hão-de voltar a cruzar-se algures na imensidão do universo. Se tal acontecer, que não seja demasiado tarde como foi neste espaço e neste tempo…
As gotículas continuam a juntar-se umas às outras engrossando até ao momento em que se precipitam e se fragmentam na aba inferior da janela.
Parecem lágrimas, tal como as lágrimas que sinto a cair pela minha face.

Olhar para trás


Ainda me lembro de escrever no cabeçalho do sumário das aulas o ano 1967. Nostalgia? Não. Só tenho pena que ao recordar o passado, o tempo que me lembro é uma bilionésima parte do tempo que já vivi. Passei um terço da vida a dormir. Dos restantes dois terços da vida, ficaram apenas uns resíduos. Então onde estão os 46 anos que já vivi? Será possível lembrar-me tão pouco de 46 anos de vida?

Normalmente, só temos saudades daquilo que de facto mereceu a pena e, só nos recordamos daquilo que nos marcou positiva ou negativamente. O resto, desaparece ou fica gravado nas profundezas do subconsciente. Não estarei errado se concluir que o tempo passado que conseguimos medir a partir do presente, está relacionado com os momentos de felicidade, com aquilo que valeu a pena e com o que nos marcou na nossa vida. Outra conclusão é que temos que gerir o nosso tempo com inteligência, não o desperdiçando com futilidades. O tempo é tão precioso. Por vezes, ou a maior parte das vezes, só tomamos consciência disso demasiado tarde…

Outras vezes, desperdiçamo-lo conscientemente. Daí, o «Porquê?»

Porquê?


«Sinto a falta de tanta coisa que...
Que talvez nunca venha a ter.

Sinto a falta de alguém que...
Que talvez nunca venha a existir.»