sábado, 12 de setembro de 2009

Antes da infidelidade (parte 4)

Depois duma boa caminhada à beira-mar, gosto de me deitar de costas na areia da praia. Adoro descansar embalado pelo contínuo rufar das ondas e sentir a fadiga a ser absorvida pela areia moldada ao meu corpo. Com a cabeça apoiada na areia, como se esta fosse uma almofada, deixo o aroma intenso do mar mesclado com a areia, encher totalmente os meus pulmões. Ao mesmo tempo, a música das ondas, alaga lentamente o espaço que a minha mente vai deixando livre à medida que se liberta do pensamento. Ao fim de pouco tempo, fico com a sensação de estar a pairar, em semi-transe, entre o céu e o mar.
É raro, mas por vezes acontece que o rufar das ondas se cala por uma fracção de segundo. Nesse preciso instante, desperto do transe e apuro os meus sentidos para captar essa brevíssima presença do silêncio, que desaparece quase em simultâneo com a percepção que tenho da sua existência. Prolongo a escuta por muito tempo, mas a música que as ondas produzem, raramente cessa e o registo daquele breve silêncio, acaba por se desvanecer.
Há momentos que o mundo parece repousar, deixando à natureza, a incumbência de nos avisar de algo de importante, através do seu silêncio absoluto…



Naquela tarde de Outubro, sentada em frente a mim numa esplanada em Algés, a “D” dissera-me duma forma invulgarmente terna: “Tenho aqui uma pequena coisa para si…”
O tempo parecera-me ter parado. O burburinho de fundo ficara suspenso, a brisa sucumbira e eu parecia estar a sonhar. A “D”, evidenciara-me o seu primeiro sinal amoroso! Eu não queria acreditar e quando procurei certificar-me que não me enganara na minha avaliação, eis que o brilho dos seus olhos e a expressão da sua face, retomaram o vidrado e a geometria habituais. Perdera aquele sinal, tal como perco na praia, a brevíssima presença do silêncio, quando o rufar das ondas se cala por uma fracção de segundo.

Nessa noite, o Demis Roussos, com a sua paciência angelical, dera-me companhia por muitas horas. Eu observava incansavelmente a pequena caixa bege, a “pequena coisa”, que tinha no seu interior uma chave de prata e recordava deslumbrado, aquele sinal que a “D” me dera nessa tarde. Acabei por adormecer como quase sempre, a sonhar com a “D”.
Na manhã seguinte, mostrei à minha mãe o que a “D” me tinha oferecido pelo aniversário (naquela tarde de Outubro, fizera 20 anos). A minha mãe sorriu amorosamente para mim e disse-me que eu tinha de oferecer à “D”, como retribuição, um coração de prata...

Afinal, a “D” não me dera apenas um sinal naquela tarde, mas sim dois…

domingo, 23 de agosto de 2009

Antes da infidelidade (parte 3)

Um dia, apercebi-me que a minha altura ultrapassara a altura da “D”. O meu ângulo de visão sobre os seus olhos mudara e eu tinha muita dificuldade em ocultar o brilho de felicidade que ela de certeza via nos meus olhos sempre que as nossas retinas se tocavam. Nessa altura, os nossos encontros eram menos frequentes, “eu estava a dar-lhe espaço”, dissera-me ela um dia. Mas esse intervalo de tempo, funcionava como uma lupa aumentando ainda mais toda a irracionalidade da minha paixão. Entre os meus dezassete e dezanove anos, estávamos meses sem nos vermos. Era eu que normalmente tinha a iniciativa de lhe telefonar para combinarmos sair. E bastava ouvir a sua voz pelo telefone e o vazio e o cheio conjugavam-se sob a forma de angústia e alegria que se enlaçavam fortemente entre o sonho e a realidade.
Apesar de ser ainda menor de idade, eu já vivia sozinho e era praticamente independente. Como estudava e trabalhava, a minha vida social não era muito intensa. Reunia-me com os meus amigos esporadicamente, quase todos eles muito mais velhos do que eu. Ia-mos ao cinema ou a um “Pub” mas a nossa preferência caía quase sempre sobre a Central de Belém onde ficávamos até de madrugada a petiscar e a contar anedotas. Ria-mos até nos doerem os músculos e a cada rodada que chegava à mesa levantava-mos os copos para brindar a nós e à vida. As anedotas seguintes depois da terceira rodada eram explosivas mesmo que não as entendêssemos ou tivessem graça alguma. Jamais me esquecerei desses momentos!
O facto de viver sozinho, oferecia-me desvantagens e vantagens. Uma das vantagens, era usufruir dum cantinho só meu e puder transformá-lo num ninho para sonhar, namorar e amar tranquilamente...

Nunca falei com a “D” sobre as minhas “amigas” assim como ela também nunca me falara em namorados ou amigos. Quando nos juntávamos eu tinha a sensação de estar a dar continuidade a qualquer coisa de muito importante sem identificar ou saber exactamente o quê. E depois, sentia-me como um rio se deve sentir depois de atravessar os rápidos acidentados e cascatas abruptas para passar a um leito regular com margens verdejantes e árvores majestosas onde as famílias fazem piqueniques e as crianças brincam alegremente em segurança. Ela serenava-me e tranquilizava-me o espírito só com a sua presença. Era como se ela me transformasse. Ou então, eu retornava à minha autenticidade, à minha verdadeira natureza.

As nossas conversas eram simples e vulgares. Mas dentro da simplicidade, tudo parecia atingir uma dimensão impressionante. Quantas vezes me questionavam sobre o que é que eu gostaria de fazer no futuro ou que curso gostaria de frequentar. Eu respondia quase sempre com um encolher de ombros. Mas quando a “D” me questionava sobre o meu futuro ou outra questão por mais insignificante que fosse, as minhas respostas eram arrancadas da minha profundeza e quando não encontrava as respostas, mais tarde retomava o assunto para que ela soubesse a minha opinião ou decisão. Na altura, não tinha consciência da importância que esta partilha estava a ter na minha formação e na minha vida. A consciência que tinha era que não imaginava a minha vida e o meu mundo sem a “D”. Sempre que nos despedíamos um do outro, eu mergulhava numa nostalgia e num tédio enorme.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Antes da infidelidade (parte 2)



A “D” estava sentada ao meu lado a cumprir aquela que seria a sua última explicação. Como Já não havia matéria nova para explicar, então, dirigia-me elogios pelas notas dos últimos testes e do “Muito Bom” a francês. Falava-me das férias e do tempo livre que eu iria ter para estar com os meus amigos. Da minha nova escola e do curso industrial. Mas eu não conseguia reagir. Estava demasiado triste. Tudo o que eu fizera, fora por ela. Para a não decepcionar. Para que gostasse muito de mim e agora era o fim. Ela ia-se embora e eu iria perder tudo. Era esse o sentimento que eu tinha: Perda total.
Ela apercebera-se de tudo o que eu estava a sentir e descansou-me dizendo-me que poderíamos ficar amigos. E para me tranquilizar ainda mais, perguntou-me se eu quereria ir ao cinema com ela nesse fim-de-semana.
Mais tarde, eu percebera que também ela se afeiçoara a mim.
O meu corpo e as minhas hormonas estavam em transformação. O meu comportamento e a minha compreensão sobre os acontecimentos as coisas e as pessoas, tinham outra amplitude.
A minha admiração pela “D” passara para o nível da paixão, do amor.
A “D” nesta altura, fora determinante para os equilíbrios da minha adolescência. Fora uma luz, um caminho uma referência.

As nossas idas ao cinema Restelo. Os nossos passeios a pé por Belém e por Lisboa. As nossas idas à praia e os jogos de sueca em que ela era sempre a minha parceira. As partidas de Monopólio que fazíamos os dois sozinhos durante horas. As nossas conversas, os nossos silêncios cúmplices e o nosso contacto fortuito de pele, levaram-me a construir um mundo dividido em dois hemisférios: O hemisfério Com “D” e o hemisfério Sem “D”.
O hemisfério Sem “D” era o mundo real. Eram as dificuldades do dia-a-dia, o perigo das escolhas e das opções. Os amigos e as namoradas que nunca passaram para o outro hemisfério…
O hemisfério Com “D” era o lugar dos meus sonhos, o paraíso. Era para onde eu me transportava à noite embalado pelos Demi Russos e imaginava a minha vida ao lado da “D”. Curiosamente, nunca tive pensamentos de luxúria ou prazer com a “D”. A minha felicidade estava no conforto da ideia de ela estar à minha espera...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Antes da infidelidade (parte 1)

Vou recuar cerca de trinta e cinco anos, até ao tempo em que quase tudo estava no início na minha vida.

O “antes” começou quando eu tinha cerca de doze anos de idade, quando a minha professora de francês pôs uma nota no caderno para que o meu encarregado de educação (minha mãe), entrasse em contacto com a directora de turma com urgência. Estávamos no final do primeiro período do ciclo preparatório e, para evitar o mais que provável chumbo a francês, a professora convocara o meu encarregado de educação.
A minha mãe ficou a saber que eu era péssimo a francês e que ia ter uma nota muito baixa e de recuperação difícil. Uma semana mais tarde, comecei a ter explicações com a "D" duas vezes por semana.
As explicações eram dadas em minha casa e tinham a duração do tempo necessário para recuperar parte da matéria atrasada, rever a matéria da semana e ainda corrigir trabalhos de casa passados pela professora de francês e também que ela própria me deixava para fazer.
No início, eu não achava graça nenhuma ter os meus amigos a jogar à bola ou a brincar aos cowboys e aos índios e eu na sala ou na cozinha à volta do "Passé Composé com o Être e o Avoir" e com a “D” a exigir a minha concentração e colaboração. Mas, ao fim de pouco tempo, uma ou duas semanas, as coisas começaram a encaixar umas nas outras e aquilo que parecia para mim um "bicho-de-sete-cabeças" impossível de ultrapassar, estava a tornar-se cada vez mais fácil e interessante ao ponto de eu tirar tanto prazer na resolução dos exercícios de francês na companhia da “D” como se estivesse a marcar golos ou a matar cowboys com os meus amigos (eu sempre preferi ser índio a cowboy).
A preparação para o primeiro teste de francês no segundo período foi algo que a “D” assumiu como a sua obra e investiu de tal maneira que lembro-me de ter gasto mais de duas sebentas de exercícios. Eu lutava como um Cheyenne contra os “caras pálidas”. Não virava costas à luta e evidenciava coragem suficiente para desafios cada vez maiores. Ela, determinada por natureza e motivada pela minha dedicação, não deixava uma única dúvida, por menor que fosse, por esclarecer ao ínfimo detalhe.
Quando trouxe o resultado da primeira batalha a “D” ficou tão satisfeita e radiante que deu-me um beijo de parabéns. Eu ficara muito feliz e ela muito mais que feliz e orgulhosa.
A “D” tinha dezoito anos. Olhos e cabelos castanhos-escuros não muito compridos. Era relativamente alta, cara arredondada e elegante. A sua maior beleza, era a sua simplicidade e a ternura que irradiava à sua volta em tudo o que fazia. Não me lembro dum único gesto dela que pronunciasse sacrifício ou incómodo. A sua bondade, a sua dedicação e a amizade que manifestava causavam-me um sentimento de admiração que de dia para dia não parava de aumentar.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Pronto

Falar de infidelidade ou adultério na primeira pessoa do singular não é coisa fácil. Tenho andado a pensar como o deverei fazer da melhor forma.
Acho que devo desenvolver este tema passando pelas três fases da infidelidade e do adultério:
- O antes, o durante e o depois.
Vai ser um desafio transmitir sonhos, desejos, emoções e sentimentos que guardo na minha memória desde a adolescência. Nem estou certo se estarei à altura de tal desafio. Mas vale a pena tentar. Faço-o por mim e por todos aqueles que amam o amor.
Para ser genuíno, já tirei a máscara. Agora tenho que me despir para que todo o corpo da verdade evidencie toda a sua geografia. Deverei pôr a descoberto não só o corpo mas também os seus detalhes. Desde uma cicatriz imperceptível a uma unha encravada.
Estou pronto para tirar o véu...